25 de abril de 2016

Colheita



Como é que o coração da gente, que é do tamanho de um punho, pode guardar coisas tão grandes que são até impossíveis de dimensionar? Tem coisas que acontecem mesmo por uma causa nobre e justa...

Nos últimos tempos, ganhei um presente. Custei a desembrulhá-lo porque suspeitava que a bela embalagem seria bem difícil de se abrir. Então, com certo medo da decepção, ficava contente em admirar o bonito embrulho, sem ousar ou querer tocá-lo.

Mas com o passar do tempo, o pacote naturalmente foi se abrindo um pouquinho, revelando seu conteúdo. Eram sementes. Naqueles dias, achei o presente bem inútil, já que meu solo estava estéril. Mas o Lavrador achou que podia haver fertilidade se o terreno fosse trabalhado, e assim o fez! Dia após dia arou a terra, cultivou, plantou e observou nascer. Cuidou para que o broto ficasse forte, com frutos viçosos e raízes profundas.

Sinto-me mais rica a cada colheita, que muitas vezes, faço sozinha. Para cuidar da árvore, meu coração, que há muito batia apenas o suficiente para me manter viva, voltou a bombear meu sangue com força, irrigando ainda mais o solo em que a planta está enraizada, garantindo que ela permaneça firme, apesar dos ventos fortes que a ameaçam.

Os frutos são doces e são de muitos tipos. Quando mordidos fazem cometas percorrerem o céu da boca. Causam tremor. É uma boa safra, e a planta está carregada. Cada vez que me alimento deles, agradeço pelas sementes que brotaram. Maduros, exalam o melhor cheiro do planeta... E então eu escolho provar um bocadinho de cada por vez. Se é que dá pra descrever, eles tem gosto de proteção, carinho e atenção! Além disso, tem efeitos medicinais. Quando plantados no local correto, nunca apodrecem. Quase sempre vêm acompanhados da palavra certa, na hora certa e podem transformar um dia ruim em um dia espetacular...

Essa espécie de planta é adubada de forma calma. Cada vez que apanho um dos seus frutos, sinto a presença do Lavrador, bem pertinho, e fico satisfeita de poder oferecer um exemplar a ele também, esperançosa de que seu paladar possa sentir o mesmo gosto que eu sinto...

Agora sei o quão valioso é meu presente, porque ele contém todo tipo de sentimento bom. Seu cultivo é um tesouro inestimável! Mas ocorre que, em certas safras, colho uma fruta de que não gosto, e que chamo de saudade. Às vezes seu gosto é muito amargo e digeri-lo é sempre demorado. Mesmo assim, sua polpa é macia, e por isso permito que ele germine em minha planta. É impossível realizar uma colheita sem que um desses caia em minha cesta, mas também sei que esse, chamado saudade, só nasce porque todos os outros, que o cercam, existem.

Em dias assim, sento à sombra da minha árvore e espero, pacientemente, pelos dias de fruta doce...

6 comentários:

  1. Êpa, está apaixonada? Só que o presente é você, no caso!
    Saudades, aparece!

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    1. rsrsrs... obrigada!
      Não sou um presente... Você é que é sempre tão gentil...

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  2. Texto MARA, Pati!!! Amei!!! E uma boa leitura como essa também faz um bem enorme...bem pra alma!!! Obrigada por dividir. Cau

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  3. Pati só você pra, mesmo distante, deixar meus dias mais iluminados! Agradeço a Deus por ter uma amiga tão maravilhosa como vc! E, obrigada por compartilhar com a gente tantas coisas lindas

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    1. Ai Ju, que linda! Eu que agradeço o seu carinho!

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