20 de julho de 2015

Ativismo de sofá :: coletor menstrual não é tãaaaao legal quanto parece na internet

Parte 1

Primeiro quero relatar que estou me sentindo escrevendo uma matéria para a extinta revista Capricho, ou praquele guia lacrado da revista Nova, sabe? Mulherada sabe...

Não ia escrever sobre minha experiência com os coletores menstruais agora porque acho que nesse momento seria um pouco  má vontade da minha parte, já que tô de nariz torcido com o artefato e parece que sou a única no mundo.

Todos os depoimentos a respeito do uso de coletor menstrual na internet relatam maravilhas. Só eu não gostei gente? Ok, talvez não tenha dado chance ao mimo, então vou tentar mais vezes. Sendo assim, com tão pouca experiência com o seu uso, a princípio ia deixar pra falar disso quando tivesse mais propriedade sobre o assunto.

Mas daí pensei e resolvi que assim como eu, devem existir outras mulheres iniciantes no uso dos coletores, ainda não adaptadas, com os mesmos bodes que eu.

Então migas, esse post é um desabafo. Talvez, daqui uns meses, eu reescreva sobre o uso do coletor menstrual com uma nova visão da coisa. Quem sabe assistindo ao vídeo abaixo todo dia, eu não me convença dos benefícios de se andar com uma tigela dentro de mim 4 dias por mês?? Pelo menos evitaria esse mico aí da moça...



Mas fato é que hoje coletor menstrual pra mim é um bicho de 7 cabeças. Vou contar o por quê.

Sobre o discurso de que a mulher, ao colocar o coletor, ganha em conhecimento do corpo, balela. Não preciso de um coletor menstrual pra me autoconhecer. Também não sou dessas que acham que a menstruação é uma dádiva, que transforma a mulher quase numa divindade, e que tornam o período menstrual um ritual sagrado. Já li dicas na internet de mulheres que usam o fluxo menstrual que recolhem no coletor, nas suas plantas. Nem fod#@*%¨!! que eu jogo menstruação nas minhas plantas e fico com a casa alagada de sangue.

Então porque eu resolvi experimentar? porque sou bem preocupada com a questão ambiental e acho que, assim como estamos vivendo a crise da água em SP, logo estaremos vivendo a crise do lixo, e não falta muito tempo pra isso acontecer.

Sendo assim, sobre a questão ambiental, nem discuto. Todos os pontos pro coletor.

E na prática? Bom, na prática, o que percebi é que apesar de ser uma ótima opção pra resolver o problema de se jogar 4 absorventes por dia no lixo (e eu já menstruo há 25 anos), o uso do coletor é impraticável pra mim.

1. Acertando o ponto

O coletor é um copinho de silicone, molinho, cuja boca precisa ser dobrada e colocada dentro do nosso canal vaginal com os dedos. Até aí, sem problemas. São necessários no mínimo 3 dedos pra conseguir dobrar minimamente a boca desse copinho. Dentro do corpo, ao soltarmos, o copinho abre e adere à parede do canal, o que cria um vácuo. Nas primeiras vezes que tentei, doeu, mas é porque estava colocado errado. Foi assim também com o absorvente interno quando comecei a usar. Então, tudo bem... Eu sabia que era uma questão de acertar o jeito. 

2. Como colocar

Antes de tentar, li instruções na internet. Alguns depoimentos dizem que agachada é ótimo, deitada no chão do banheiro é ótimo, com a perna no teto é ótimo, dobrada que nem um origami é ótimo... ou seja, pra todas as técnicas é necessário o mínino de espaço e higiêne, coisa que um banheiro público não tem. O melhor jeito é sentada no vaso sanitário, mas quem senta num vaso sanitário de banheiro público?

3. E como tirar

Aí é que são elas. Como o coletor adere à parece vaginal, pra tirar não é simplesinho não. Além de doer, a coisa faz uma sucção dentro da gente e sai como uma bomba. Ploft! e se bobear, espalha o sangue pra todo o lado. É tenso, principalmente se estamos em pé, naquela posição banheiro público, sabe? Percebem que é sempre o banheiro público a pedra no sapato (nesse caso, na calcinha!)

4. Quando esvaziar

Outro problema, já que a gente não vê quando o coletor está cheio. A aderência que forma com o canal do nosso corpo não deixa o sangue vazar, o que seria ótimo, mas pensem... A menstruação tem que sair, não pode ficar lá acumulada só porque tem um plástico obstruindo a saída. Não é como o absorvente interno que quando satura sua capacidade, vaza. O coletor não deixa. Nos sites, dizem que podemos ficar com o coletor, sem esvaziar, de 4 a 12 horas. Oi? Não rola... No absorvente pelo menos a gente vê quando tá na hora de trocar.

5. Como esvaziar

Bom, até agora todos os problemas que relatei são contornáveis. Mas aí vem a hora de esvaziar. Em casa, tudo bem. Lavo as mãos, sento no vaso, tiro o coletor, lavo o coletor, coloco de novo, lavo as mãos, fim. Mas levando em consideração que trabalho fora, e que passo quase 13 horas do dia longe do meu banheiro, como fazer? A internet, sempre ela, dá a seguinte ajuda: carregue uma garrafinha com água dentro da bolsa, pra lavar o coletor.

Ok, gente. Eu entro no banheiro - público, claro - e com uma das mãos tenho que segurar a porta. com a outra, tenho que tirar o coletor, em pé, com cuidado pra que na hora que ele sair (lembrando que sai com pressão, porque aderiu ao meu canal) não voe sangue pra todo lado. Aí, com as duas mãos ocupadas, tenho que pegar a garrafinha na bolsa, lavar o coletor e colocá-lo de volta, tudo isso sem encostar em nada do banheiro.

Enquanto isso, a menstruação não pára, então, ao colocar o coletor de volta, inevitavelmente vou sujar os dedos. Então, nessa hora, com uma mão suja, a outra segurando a porta, e eu em pé, tenho que me vestir, acionar a descarga e sair do cubículo pra lavar a mão láaaaaa fora (porque pia de banheiro público é sempre longe do vaso). E o mais legal: vou fazer isso com os dedos de açougueiro, né? Sujos de sangue. Claro, toda essa logística levando em consideração que você é craque em colocar o coletor, porque senão, vai precisar sentar ou agachar. Aí miga, lascou. Fora que, carregar uma garrafa de água na bolsa é mais leve que carregar 3 absorventes? Não!

Então assim, quem leu o meu relato e tiver dicas de como tornar o uso do coletor menstrual menos sofrível, por favor, me conta. Talvez eu esteja fazendo um drama, como também é um drama a dor de cabeça que eu sinto todo mês antes de menstruar. Mimimis a parte, eu to fora, por enquanto!

Parte 2

E por falar em mimimi, recebi um link de um videozinho da Disney, de 1946, que conta a história da menstruação. Bom, de tanto enfiar princesas nas nossas goelas, não teriam como escapar dessa abordagem, né? Então, produziram um video bem educativo explicando que menstruação não é doença, e que você pode até dar uma espanada na casa nesse período. Não são fofos? #sqn


Só esqueceram de explicar como é que a Branca de Neve consegue cantar com passarinhos mesmo tendo que lavar cueca de 7 homens por dia, além dos seus paninhos de bunda; de como a princesa Aurora não morreu afogada na própria menstruação já que ela dormiu por cem anos; de como a Cinderela, no dia do baile, conseguiu trocar o absorvente usando aquele vestido da ala das baianas e de como a Ariel não morre de cólica mesmo vivendo na água fria a vida toda.

Será que só a Malévola menstrua nesse mundo encantado?

Ahhhh os contos de fada...

3 comentários:

  1. Ai minha amiga, enxergar príncipes onde só existe um sapo é a sua cara!

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    Respostas
    1. Mas as vezes eu tiro os óculos e fica tudo bem... hehehehehe...

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  2. Acho logisticamente complicado também! Quanto a pegada ecológica, dá contribuir com o mundo de outra forma para produzir menos lixo e poluição, como: sacolas retornáveis, jogar o óleo de cozinha em pontos de coleta ao invés da pia (que por sinal polui muuuuuuito os rios, mas ninguém fala), entre tantas outras. Um beijo!

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