5 de março de 2015

Take a walk on the wild side


Atire a primeira pedra quem nunca pensou ser frescura o que uma pessoa depressiva relatava em seus lamentos. Eu já pensei. Mas daí, há quase 4 anos, mais ou menos, fui diagnosticada com a doença e então estive do outro lado da linha. Só assim pude entender o que era, de fato, a depressão.

Junto com o diagnóstico de depressão, veio o da Síndrome do Pânico. Hoje, finalmente, recebi a alta dos medicamentos que tomo. Não é uma alta total porque essa só vem depois de muito tempo de tratamento. Mas quando os comprimidos deixam de ser diários e passam a ser semanais, a pessoa já é considerada curada e tem a chamada alta parcial medicamentosa.

Nesse meio tempo, as doses passaram de diárias para dia-sim, dia-não, e depois foram tomadas de 3 em três dias. É um processo longo, a gente passa por recaídas, sofre à beça... Mas se salva. E quando nos livramos de seus sintomas, percebemos que nos livramos também da incapacidade de dizer "não". É, de fato, uma libertação!

Embora agora eu seja feliz, minha felicidade certamente não é a propagada pelos filmes de Hollywood ou os comerciais de margarina, nem aquela vivida pelas protagonistas de romances americanos. Eu realmente gostaria de ser a mocinha de algum romance desses, triste agora e feliz no parágrafo seguinte - e para sempre! - como só os americanos sabem ser, mas acontece que não é assim. A vida real, reproduzida em tramas populares, não é assim, mas a gente aprende a não promover um exagero dos fatos e de suas causas.

E então, do outro lado, a gente aprende também que isso é que é o normal, e que praticamente todo mundo vive assim: um dia de cada vez. E a gente aprende a valorizar pequenas coisas. E a gente aprende a ser feliz acompanhada, e sozinha, e acompanhada de novo... E a gente aprende que é possível se curar, mesmo quando a perspectiva dos piores dias dessa fase nos faça acreditar no contrário.

Mas a cura depende desse aprendizado?

Não. Pelo menos na fase da doença em que eu cheguei antes de iniciar o tratamento, não. É preciso outro recurso. O medicamento tem que ser ministrado porque, segundo o médico que me acompanhou, chega uma hora em que, apesar de os motivos que nos levam à depressão serem fatores externos, os sintomas são físicos e químicos.
Ele me explicou que a angústia que a depressão causa bloqueia a produção de uma enzima responsável pelo bem estar e que essa reposição tem que ser química, portanto, com medicamentos. Claro que ele me falou tudo isso de um jeito mais técnico, mas em suma, é isso.
Ouço relatos de pessoas avessas à medicação. Eu também era. Mas dito desse jeito, como o médico me disse, a coisa fez todo o sentido pra mim.

As fases da crise

No início era só cansaço. Depois eu achava que tinha algo no coração. Minha impressão era a de que o meu coração estava solto dentro do meu corpo, e que ele balançava dentro da caixa toráxica. Veio a indisposição, a falta de vontade de levantar da cama, a falta de concentração, e a falta de vontade de abrir as janelas, de ficar no escuro o tempo todo. Até a posição de dormir muda. A gente tenta se proteger, dorme encolhida, sente dores.
Então, chega o pico da coisa. A fase em que a gente não consegue mais respirar. É como se todas as costelas apertassem nossos pulmões, como se o ar não coubesse mais na gente. A gente tem a sensação de que aquele corpo que se desespera não é nosso. Essa dificuldade em respirar é tanta que mesmo que você puxe todo o ar que conseguir, seus pulmões não enchem. Nesse estágio, uma dor bem pontual no peito, entre o colo e o seio esquerdo, me incomodava quase que constantemente. Não é uma dor lancinante, como se algo me perfurasse e me causasse pontadas. É uma coisa que começa na pele e vai atravessando o corpo até chegar nas costas. Quando eu tentava explicar, era como se eu enxergasse um fio que liga o peito e as costas por dentro do corpo, e por onde essa dor passa.
Sem dramas, despida do medo de ser julgada, eu conto aqui o que eu pensava todos os dias nesse período: quando estamos doentes, rezamos pra sarar; quando estamos com depressão, rezamos pra morrer.
Parece terrível né? E é! Mas eu me lembrava todos os dias da minha primeira consulta e do que meu médico me disse. "Patrícia, tenho certeza de que o que você sente é dolorido e difícil de administrar, mas confie. Eu garanto que você vai sarar".
Não sei o que essa frase foi capaz de fazer dentro da minha cabeça, mas ela me ajudou todos os dias, durante os últimos 4 anos. #grata #gratíssima #graterérrima.

A cura

Como já disse em algum lugar aí pra cima, a cura é lenta. Temos recaídas. Temos dias melhores em que achamos que podemos deixar os remédios (daí ferra!!! rsrsrs...). Temos pouco apoio porque as pessoas não reconhecem em seu estado, uma doença. Então, o processo é todo meio solitário. Mas acredite, ele chega ao fim!
Aquilo que doía acabou. Me sinto feliz, sem medos, sem traumas e sem dores (só nos joanetes! rsrs).

2 comentários:

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