8 de fevereiro de 2014

De Liverpool para o mundo, com Ed Sullivan como talismã

Há exatos cinquenta anos...

Foi um susto, maior do que o próprio Ed Sullivan poderia supor. Quando já eram grandes na Inglaterra, os Beatles desembarcaram nos Estados Unidos ainda como uma incógnita ao apresentador de TV que havia tido problemas com garotos rebeldes em 1957, ao levar Elvis Presley a seus estúdios pela última vez. Muita euforia e audiência nas alturas, sua experiência ensinara, traziam sempre lancinantes dores de cabeça. Se o público só estava pronto para ver Elvis da cintura para cima, obrigando os câmeras a enquadrá-lo assim, como seria com quatro jovens inconsequentes de cabelos cortados na tigela vindos do outro lado do oceano com absolutamente nada a perder?


Os Beatles chegaram e mudaram, mais do que os conceitos de Sullivan e a própria América, o universo da cultura pop. Setenta e três milhões de norte-americanos sintonizaram seus aparelhos de TV no The Ed Sullivan Show do canal CBS na noite de 9 de fevereiro de 1964, exatos 50 anos hoje. Uma audiência que só seria superada com a transmissão da chegada do homem à Lua, em 1969.

Alguns jornalistas, indignados com o barulho que julgavam gratuito, foram ao ataque. “Visualmente, eles são um pesadelo. Musicalmente, um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras (marcadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’) são uma catástrofe, um monte de sentimentos inspirados em cartões do Dia dos Namorados”, escreveu a Newsweek. Pior foi o New York Daily News: “Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Kruchev”.

Cinquenta anos se passaram e ninguém se esqueceu dos Beatles – ao contrário de Fidel Castro, hoje mais uma memória do que uma ameaça, e Nikita Kruchev, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética que cairia naquele mesmo ano de 64. Hoje, às 23 h (horário de Brasília), a CBS exibe no mesmo palco em que Sullivan apresentou os quatro ingleses pela primeira vez um especial de duas horas com Paul McCartney e Ringo Starr para lembrar da noite que mudou tudo.

Paul e Ringo vão tocar juntos músicas ainda mantidas sob sigilo. Se forem repetir o que os Beatles fizeram em 1964, farão um set rápido e econômico, com All My Loving, Till There Was You, She Loves You, I Saw Her Standing There e I Want To Hold Your Hand, as cinco canções que conquistaram a América. Na verdade, o especial já foi gravado, na mesma semana da apresentação do Grammy Music Awards, quando Paul e Ringo se viram no palco novamente desde 2010 para tocarem juntos. Os dois também foram entrevistados por David Letterman e muitos convidados estavam previstos, como o duo britânico Eurythmics – a primeira reunião depois de 10 anos de distância. Outros esperados são Maroon 5, Alicia Keys, John Legend, John Mayer, The Flaming Lips, Broken Bells, Lenny Kravitz e Keith Urban. O que eles farão também é uma incógnita.

A chegada dos Beatles à América fez no palco de Ed Sullivan apenas a largada para uma temporada transformadora de 34 dias que incluíram 32 shows em 24 cidades, girando um faturamento de US$ 7,5 milhões. Ao Ed Sullivan, além do dia 9 de fevereiro, o grupo retornaria em 16 e 23 do mesmo mês, cada vez mais incendiário.

As apresentações na TV norte-americana foram lançadas em DVD no Brasil pela gravadora ST2, deixando evidente o impacto do nível de decibéis que vinha da plateia. Apesar de avassaladores ao vivo, os Beatles não iriam muito longe como atrações de palco. Quando os gritos das fãs ficaram muito mais altos do que a volume de seus instrumentos, eles decretaram o fim dos shows ao vivo e fizeram o último deles, para um público pagante, no dia 29 de agosto de 1966, no Candlestick Park, em São Francisco. Se despediram das multidões com Paperback Writer e Long Tall Sally. Três anos depois, voltariam a se reunir no telhado do prédio da gravadora Apple Records, em Londres, mas não para uma plateia pagante nem para um show convencional.

Ed Sullivan, morto em 1974 vítima de um câncer no esôfago, aos 73 anos, esteve à frente do mais influente programa musical dos Estados Unidos entre 1948 e 1971. Viu a história ser escrita diante de seus olhos ao levar para lá Judy Garland, Beach Boys, Rolling Stones, The Mamas and The Papas, Jackson 5, Supremes, The Doors, James Brown, Ray Charles, Stevie Wonder, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival e todos os grandes representantes de duas gerações. Ao olhar para um Michael Jackson dançando com seus irmãos aos 6 anos de idade, disse apenas, antes de dar boa noite: “Olhem bem para ele, esse menino vai longe”.

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