8 de fevereiro de 2013

Porquices e gordices de repúblicas

Não tenho muitas fotos da época em que morei em Rio Claro, interior de São Paulo, quando ingressei no curso de Física da Unesp, em 1994.

Tínhamos motivos de sobra para registrar momentos como as festas de toda quinta-feira, do Diretório Acadêmico, do qual eu era membro; do Congresso da Une, em Brasília, em 1995; dos festivais inter-Unesp de música, do qual participei da edição acontecida em Presidente Prudente; das inúmeras reuniões entre amigos que aconteciam com bastante frequência e do baile à fantasia, evento mais esperado do ano pelos alunos, pela cidade, e pelos outros campi, porque vinha gente de todo canto para a cidade só para essa festa.

Penso que não tenho muitas fotos desse tempo simplesmente porque não tinha máquina fotográfica. Era uma dureza danada. Sendo assim, e até por causa disso, guardo os poucos retratos que tenho com o maior carinho, e estou sempre dando uma olhadinha neles. Um, em especial, me chama a atenção e me faz rir. Fico pensando em como eu consegui morar nessa casa.


Pelo que sei, o imóvel, que naquela época já devia ter uns 100 anos (e eu só tinha 18!), antes de se tornar uma república para moças era alugado para um senhor que o transformou em uma espécie de cassino, ou simplesmente casa de jogos. O esquema era tão xexelento que os frequentadores anotavam seus pontos da jogatina nas paredes. Depois virou casa de estudantes e quando eu cheguei a Rio Claro, a república já estava montada, praticamente dentro da faculdade de tão perto que a casa ficava do campus. A cortina que fazia as vezes de box, no banheiro, era presa por uma faca de cozinha. Nossa TV tinha antena com chumaços enormes de palha de aço, o fogão era azul e tinha aquelas asinhas laterias e a pia merecia um post só pra ela, tão nojenta que era.

Tudo era meio encardido. Mas não era assim porque éramos sujas. A bem da verdade, nossa república era uma das mais limpinhas que eu conhecia. A Toca do Javali, por exemplo, "rep" masculina onde moravam nossos amigos, tinham ratos que eram conhecidos pelos nomes e a Tombinha, vira-lata deles, dormia cada noite na cama de um.

Nossa casa não. Meu quarto, que eu dividia com uma amiga (Aline, a do meio, na foto), ganhou uma demão de tinta e ficou um chuchu. A sala também foi pintada e com isso demos um jeito nas anotações feitas nas paredes. O chão de taco era encerado sempre. A porta do banheiro ganhou trincos, que não tinha. O chão da cozinha era lavado com mais frequência do que eu tomava banho. Ele era de uma cerâmica porosa, que não existe mais, quase rústico mesmo. Não tinha o esmalte que os pisos tem hoje e portanto grudava uma sujeira que não saia com vassoura ou uma passadinha de pano. Além disso, ele era amarelo e vermelho, e já que era feio, precisava estar pelo menos limpo, sempre. A casa ainda tinha mais dois quartos, com uma moradora em cada, garagem para um carro, uma varandinha na frente e um quintal bem pequeno no fundo, com tanque de cimento e uma porta que dava direto para a rua, como toda casinha antiga de interior tem.

A porquice a que me refiro no título se dava pelo aspecto da casa, em si. Acho que por conta do estado do imóvel, tudo estava meio impregnado. Os azulejos da cozinha, que foram assentados só até a metade da parede, tinham uma gordura agarrada que eu não conseguia tirar nem com britadeira. As panelas, além de muito, mas muito encardidas, eram amassadas, e nada fazia jogo com nada naquele lugar. Cada menina que ia chegando para morar lá levava uma coisa e quando saia, ou se formava na faculdade, largava o que tinha levado na casa. Por conta disso, tínhamos uns utensílios domésticos muito vulgares: um prato de cada cor, um talher de cada tamanho, xícaras sem pires, e uma infinidade de porcariadas que guardávamos no móveis moles, barulhentos e desconjuntados. A única coisa que formava um conjunto era a meia dúzia de copos pinks em material acrílico que eu levei para a república e que pode ser visto na foto. Eram os copos mais feios que eu já vi na minha vida, vale dizer.

Mas apesar de tudo isso, éramos felizes. Um estado de alegria constante de quem tem o vigor da juventude e a dádiva de se estar onde se quer, fazendo o que se quer e na companhia de quem se quer. Era todo mundo muito amigo. Foi um período realmente bom.

E era bom mesmo com todos esses problemas estruturais.Tínhamos outros, como a alimentação, por exemplo. Nesse dia em que a foto foi tirada, do qual me lembro com perfeição, comemos arroz e salsichas com molho - praticamente um risoto! Mas nós tínhamos motivos para comer mal. Um deles era a falta de tempo. Como o curso era em período integral, as aulas iam das oito ao meio dia e recomeçavam às duas da tarde, até às seis. O intervalo de duas horas era curto. Outro motivo, mais condizente com a verdade, é que preferíamos guardar a grana destinada a fazer compras de supermercado, que os pais nos davam, e gastávamos tudo nas festas de quinta-feira, em cerveja. Para vir pra São Paulo, nos fins de semana, pegávamos carona. Ninguém reclamava de comer salsicha de manhã, a tarde, a noite... As vezes rolava até um bolo quando eu resolvia dar o cano na aula da tarde.

Morei nessa casa por um ano e meio, depois me mudei para um imóvel com condições um pouquinho melhores, mas a safra de salsichas continuou forte na nova casa, que ficava à um quarteirão da antiga. Maria Amélia (à esquerda na foto), continuou na casa de pisos amarelos até a formatura.

Resumindo, a casa era porca e a comida longe de ser boa, mas não me lembro de um minuto sequer que não tenha valido a pena nesse tempo em que morei lá.

Em tempo: só para constar, aquilo pendurado na parede era uma tábua de cortar carne. E sim!!! Eu tenho vergonha dela... rsrsrsrs...

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