10 de janeiro de 2013

Utensílios de Ogros na visão de Xico Sá

Na medida em que ia avançando na leitura do texto "Macho perdido: necessaire x capanga", de Xico Sá, minha curiosidade sobre o que ele teria achado ao vasculhar uma necessaire masculina foi crescendo ao mesmo tempo em que eu própria fui resgatando meu repertório de lembranças do conteúdo da necessaire de um exemplar de macho perdido que conheço. 

O que eu não sei dizer é tivesse ele atingido a idade do lobo na década de 80, e não hoje, se seria diferente. Acho que usaria sua meleca antibrilho facial que reduz a oleosidade da zona T em qualquer que fosse a época, mesmo que tivesse que guardá-la na carteira modelo capanga, e não na necessaire, porque naquela época macho que era macho nem sabia pronunciar "necessaire".

Com certeza, esse exemplar a que me refiro também não foi feito da costela de Adão. Mas essa é só uma constatação, e não uma crítica. Muito pelo contrário. Acho é bom que ele não palite os dentes com a ponta da faca. É educadinho, perfumadinho, arrumadinho, mas na medida certa. Em contra-partida, não se depila. Isso lhe dá crédito para usar uma necessaire.

Em todo o caso, esse post não é sobre ele (mas foi impossível ler o texto e não pensar no shampoo ice cool menthol que deixa o cabelo com cheiro de hortelã que ele usa). O post é sobre a minha decepção em, a certa altura do texto, ver que ele acaba, assim, do nada, deixando o mortal leitor sem a comparação entre as sacolinhas do Ogro e do Engomadinho.

A respeito da capanga do macho-jurubeba, concordo plenamente com tudo o que foi elencado pelo Xico. Só esqueceu daquele pentinho redondo, de dente curtinho, com um anel para encaixar o dedo médio e domar a juba enquanto brada aos quatro ventos que sujeito-hômi não chupa o mel, come a abelha!

Reproduzo o texto aqui, na íntegra.

"Macho perdido: necessaire x capanga

Depois de citar ao infinitum a expressão macho-jurubeba, recebi uma nova balaiada de mensagens pedindo, encarecidamente, que eu tentasse explicar o que seria o tal homem.

Bela tarefa para cumprir logo ao alvorecer desta segunda sem lei.

A expressão surgiu no Cariri, onde os fracos não têm vez, mas ganhou força no seguinte momento:

Ao me deparar em um banheiro de um moderno restaurante de SP, com dois homens, aparentemente héteros, discutindo sobre técnicas depilatórias e cremes básicos para uma nécessaire masculina, me veio ao cocoruto, imediatamente, a velha imagem da capanga e o kit máximo permitido por um macho-jurubeba.

Como bem sabemos, amigo, o macho-jurubeba é o macho-roots, a criatura de raiz, o sujeito tradicional e quase em extinção nos tempos modernos.

Praticamente extinto, sejamos sinceros. Não há esperança, o velho Francisco, meu pai, lá no seu rancho nas bordas da chapada do Araripe, deve ser um dos derradeiros da legião de bravos.

O macho-jurubeba é um personagem que nos parece nostálgico e, de algum modo, folclórico, mas perfeito para nos revelar o universo dos marmanjos até meados nos anos 1990 – quando Deus fez, de uma costela do David Beckham, o ser doravante conhecido como metrossexual.

Vasculhemos, pois, a capanga, usos, costumes higiênicos e os arredores antropológicos deste predador do nosso paleolítico.

Era sim naturalmente vaidoso o macho popular brasileiro.

Aqui encontramos os vestígios: um espelhinho oval com o escudo do seu time ou uma diva em trajes sumários, um pente nas marcas Flamengo ou Carioca, um corta-unhas Trim ou Unhex, um tubo de brilhantina, um frasco de leite de colônia…

Vemos também, no fundo do embornal, uma latinha de Minâncora e outra de banha de peixe-boi da Amazônia em caso de eventuais ferimentos, calos ou cabruncos.

Em viagens mais longas, barbeador, gillette, pedra-hume – o seu pós-barba naturalíssimo, nada melhor para refrescar a pele e fechar os poros.

Alguns pré-modernos e distintos se antecipavam aos novos tempos usando também Aqua Velva, a loção para o rosto utilizada pelos “homens de maior distinção em todo o mundo”.

Investigamos também, no kit do macho-jurubeba, emplasto poroso Sabiá, pedras de isqueiro com a marca Colibri e um item atual até nossos dias, o polvilho antisséptico Granado, afinal de contas a praga do chulé é atemporal e indisfarçável.

O lenço de pano nem se comenta, não podia faltar nunca.

Ainda no capítulo do asseio corporal e dos bons tratos, façamos justiça às moças. Elas adoravam tirar nossos cravos e espinhas, atitude hoje cada vez mais rara – se alguma o fizer, amigo, a tenha na mais alta conta, a abençoada filha de Eva te ama mesmo.

Objeto de investigação e estudo do caboclo pré-metrossexualismo cachetes de Cibazol.

Aí, porém, já saímos um pouco dos cuidados estéticos e vasculhamos outros armarinhos de miudezas do vasto museu deste homem que – para o bem ou para o mal- já era".

3 comentários:

  1. Amigaaaa... não defenda o macho flanelinha!
    Se com um peixeira na mão a coisa já era ruim, com um alicatinho de unha a tendência é que passem mais tempo em frente ao espelho que em cima da cama.

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    Respostas
    1. Cara amiga anônima,

      Conheço os riscos da raça!!! rsrsrs

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  2. Na minha "bolsinha" também teria engove, né?!! ha ha ha

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